As licófitas e samambaias do Parque Metropolitano de Pituaçu – PMP (Salvador, Bahia, Brasil)

Por Luiz Armando de Araújo Góes-Neto *

* Biólogo. Mestrando em Botânica Tropical no Museu Paraense Emílio Goeldi – MCT, Campus de Pesquisa, Coordenação de BotânicaAv. Perimetral 1901, Terra Firme, Belém-PA. CEP: 66017-970e-mail: netto_marley@hotmail.com

 

Figura  1: Báculo de Phlebodium decumanun em desenvolvimento no Parque Metropolitano de Pituaçú – PMP (Salvador, Bahia, Brasil). Foto: Luiz Armando Góes-Neto.

As licófitas e samambaias (antigo grupo das pteridófitas) são vegetais criptogâmicos vasculares, que se reproduzem por esporos. Prado (2003) estima haver aproximadamente 13.000 espécies de licófitas e samambaias no mundo, sendo mais de 1.200 licófitas e aproximadamente 11.500 samambaias (Judd et al. 2002; Pryer et al. 2004). Deste total, cerca de 3.250 ocorrem nas Américas, das quais 30% podem ser encontradas no território brasileiro, fazendo deste um dos principais centros de endemismo e especiação destes vegetais no continente sul-americano (Tryon, 1986). Como estas necessitam de água livre no seu ciclo de vida para a fecundação, supõe-se que sejam restritas à ambientes úmidos, porém, ocorrem em uma enorme diversidade de habitats (Nonato, 2005). Como são detentoras de importantes adaptações, tais vegetais conseguem sobreviver a longos períodos secos, a temperaturas excessivamente frias (inclusive neve), a queimadas, inundações e também em ambientes salinos, ácidos e básicos (Pietrobom & Barros, 2006). Nas regiões tropicais, são encontradas desde o nível do mar até o limite da vegetação altimontana, podendo ainda ocorrer em ambientes subdesérticos, salobros, em florestas pluviais tropicais ou pluviais de encosta (Windisch, 1992).

 

Figura  2: Nephrolepis biserrata epifitando um exemplar de Syagrus coronata (Licurí) no Parque Metropolitano de Pituaçú – PMP (Salvador, Bahia, Brasil). Foto: Luiz Armando Góes-Neto.

 

Devido a esta variedade de ambientes, podemos observar plantas terrestres, epífitas, hemiepífitas, trepadeiras, rupícolas, saxícolas e aquáticas, que variam desde alguns milímetros até muitos metros de altura (Pietrobom & Barros, 2006). Também são encontradas nas latitudes correspondentes às regiões subtropicais e temperadas, até próximo aos círculos polares (Windisch, 1992). São importantes componentes da flora e são fundamentais para o desenvolvimento, estabelecimento e manutenção de outros grupos vegetais e animais (Smith, 1972), pois contribuem como mantenedoras da umidade do interior da floresta, absorvendo água pelas raízes e densos rizomas, distribuindo-a gradualmente ao solo e ao ar, desenvolvendo a microfauna e microflora do substrato, extremamente necessários para o equilíbrio ecológico do ambiente (Brade, 1940).

 

Figura  3: Lindsaea lancea var. lancea. no Parque Metropolitano de Pituaçú – PMP (Salvador, Bahia, Brasil). Foto: Luiz Armando Góes-Neto.

 

Como são sensíveis às mínimas variações das condições ambientais, constituem-se em importantíssimo banco de dados das características pretéritas e atuais de determinada região (Barros & Costa e Silva, 1996), sendo ótimas indicadoras do grau de preservação de uma área florestal (Xavier & Barros, 2003). No Brasil, estão distribuídas principalmente nas áreas de domínio da Mata Atlântica (Labiak & Prado, 1998). Atualmente este bioma possui aproximadamente 7,3% de sua cobertura florestal original, sendo considerado um hotspot e identificada como a quinta área mais ameaçada e rica em espécies endêmicas do mundo (IBAMA, 2008). Em virtude da atual fragmentação e desflorestamento das áreas de Mata Atlântica, principalmente urbanas, devido à especulação imobiliária, e ao crescimento populacional desordenado, esta biodiversidade encontra-se ameaçada. A permanência de florestas nas grandes cidades é um indicador de qualidade de vida, urbanismo e respeito ao meio ambiente. A manutenção de fragmentos florestais urbanos é essencial para manter os serviços ambientais e propiciar opções de lazer e recreação. Além disso, eles diminuem os efeitos do calor excessivo, reduzem a poluição do ar, protegem as bacias hidrográficas e mananciais de água e conservam o solo contra a erosão (Leão et al. 2008).

 

Figura  4: Lycopodiella alopecuroides próximo à margem no Parque Metropolitano de Pituaçú – PMP (Salvador, Bahia, Brasil). Foto: Luiz Armando Góes-Neto.

 

No Município de Salvador existem alguns fragmentos florestais, dentre estes está o Parque Metropolitano de Pituaçu (PMP), que é considerado um dos maiores  fragmentos urbanos de área verde dentro da Região Metropolitana de Salvador (CONDER, 2005; Araújo et al. 2003). O PMP situa-se nas coordenadas geográficas 12º56´S e 38º25´W (CONDER, 2006), sendo criado por meio do Decreto Estadual nº. 23.666 de 04 de setembro de 1973. A partir de 1977, foi reconhecido como uma Unidade de Conservação sob o Decreto Municipal nº. 5.158 (SEIA, 2007). Atualmente, o PMP possui uma área de 425 ha. de área verde, com vegetação ombrófila densa e formações vegetais de restinga, devido à proximidade com o mar (Conceição & Pereira, 1998). Possui uma lagoa com espelho d’água de aproximadamente 4 km de extensão no seu interior, além de uma ciclovia com 15 km de extensão. A topografia é típica do Recôncavo Baiano, com colinas elevadas, estando os pontos mais altos entre 45-50 m e os mais baixos com 5 m de altitude. A pluviosidade média anual chega a 1.800 mm, com um período de maior índice pluviométrico entre março e julho, e outro, menos chuvoso, de agosto a fevereiro. Segundo a classificação de Köeppen, o clima é do tipo Af, tropical quente e úmido, sem estação seca aparente.

Apesar de ser um fragmento remanescente secundário de Mata Atlântica, em estágio de regeneração inicial e médio (Teles & Bautista, 2001), sofre diversas ações antrópicas, como por exemplo, atividades de pesca clandestina, lançamento de esgotos na lagoa, destruição da mata ciliar, tráfego intenso de moradores e introdução de animais silvestres (Oliveira-Alves et al. 2005). Durante os meses de janeiro a junho de 2008, foi realizado um levantamento das licófitas e samambaias ocorrentes no PMP com o intuito de gerar um guia fotográfico. Durante estas excursões foram registradas 36 espécies distribuídas em 22 gêneros e 14 famílias botânicas. Porém, só agora em 2011 com o auxílio do Field Museum of Chicago, tal guia foi publicado. Este teve como objetivo principal auxiliar os botânicos e visitantes do PMP a reconhecerem estes dois grupos vegetais tão diversos e importantes.

 

Figura  5: Lagoa de Pituaçu coberta por Salvinia auriculata no Parque Metropolitano de Pituaçú – PMP (Salvador, Bahia, Brasil). Foto: Luiz Armando Góes-Neto.

 

Quem tiver interesse em conhecer as licófitas e samambaias que ocorrem no Parque Metropolitano de Pituaçu, basta acessar o site do Field Museum: http://fm2.fmnh.org/plantguides/guideimages.asp?ID=436. O download é gratuito!

 

Referências

Araújo, C.V.M.; Santos, O.M.; Alves, L.J.; Muniz, C.R.R. 2003. Fungos micorrízicos arbusculares em espécies de Melastomataceae no Parque Metropolitano de Pituaçu, Salvador-Bahia-Brasil. Sitientibus, 3(1/2): 115-119.

Barros, I.C.L & Costa E Silva, M.B. 1996. Taxonomia, Padrão de Venação e Aparelhos Estomáticos de Pteris schwackeana Christ.(Pteridaceae Pteridophyta). Broteria, 67(1):257-262.

Brade, A.C. 1940. Contribuição para o estudo da Flora Pteridofítica da Serra do Baturité, estado do Ceará. Rodriguésia, 4(13): 289-314.

Conceição, A. & Pereira, A.D. 1998. Flora do Parque Metropolitano de Pituaçu, Salvador-BA, Brasil, Gênero Stylosanthes SW. (Fabaceae). In: Resumos do XLIX CONGRESSO NACIONAL DE BOTÂNICA, 1998, Salvador, Bahia, Anais. Universidade Federal da Bahia, p. 365.

CONDER. 2005. Parque Metropolitano de Pituaçu. (online) Disponível em <http://www.conder.ba.gov.br/parque_pituacu.htm> : Acesso em: 10/2005.

CONDER. 2006. Parque Metropolitano de Pituaçu. (online) Disponível em <http://www.conder.ba.gov.br/parque_pituacu.htm> : Acesso em: 07/2006.

IBAMA. 2008. (online) Disponível em < http://www.ibama.gov.br/recursos-florestais/areas-tematicas/desmatamento/>: Acesso em: 15/04/2008.

Judd, W.S.; Campbell, C.S.; Kellogg, E.A.; Stevens, P.F.; Donoghue, M.J. 2002. Plant Systematics: A Phylogenetic Approach. Sinauer Associates, Sunderland, Massachusetts.

Labiak, P.H. & Prado, J. 1998. Pteridófitas epífitas da Reserva Volta Velha, Itapoá, Santa Catarina, Brasil. Bol. Inst. Bot., 11: 1-79, São Paulo.

Leão, N.; Alenacar, C. & Veríssimo, A. 2008. Belém Sustentável: 1-139. Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Belém, Pará.

Nonato, F.R. 2005. Pteridófitas. In: Biodiversidade e Conservação da Chapada Diamantina. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, p.211-223.

Oliveira-Alves, A.; Peres, M.C.L.; Dias, M.A.; Cazais-ferreira, G. S.; Souto, L.R.A. 2005. Estudo das comunidades de aranhas (Arachnida: Araneae) em ambiente de Mata Atlântica no Parque Metropolitano de Pituaçu – PMP, Salvador, Bahia. Biota Neotropica, Campinas,  5(1).

Pietrobom, M.R; Barros. I.C.L. 2006. Associação entre as espécies de pteridófitas em dois fragmentos de Floresta Atlântica do Nordeste brasileiro. Biotemas, 19(3):15-16.

Prado, J. 2003. Revisões e monografias como base para análise da diversidade, o quanto conhecemos sobre a nossa flora. In: M. A. G. Jardim; M.N.C. Bastos & J.U.M. Santos (eds.). Desafios da Botânica Brasileira no Novo Milênio: Inventário, Sistematização e Conservação da Diversidade Vegetal. Belém: MPEG, UFRA; EMBRAPA. p. 278-279.

Pryer, K.M.; Schuettpeeelz, E.; Wolf, P.G.; Schneider, H.; Smith, A.R. & Cranfill, R. 2004. Phylogeny and evolution of the ferns (Monilophytes) with a focus on the early Leptosporangiate divergences. American Journal of Botany, 91(10):1582-1598.

SEIA. 2007. (online) Disponível em <http://www.seia.ba.gov.br/busca/index.cfm?criterio=Decreto%2023%2E666>: Acesso em: 12/2007.

Smith, A.R. 1972. Comparison of fern and flowering plant with some evolutionary interpretations for ferns. Biotropica, 4(1):4-9.

Teles, A.M. & Bautista, H.P. 2001. Flora do Parque Metropolitano de Pituaçu e seus arredores, Salvador, Bahia: Compositae. In: Resumos do LII CONGRESSO NACIONAL DE BOTÂNICA, João Pessoa, Paraíba, Anais. p. 235.

Tryon, R.M. 1986. The Biogeography of species with special reference to ferns. The Botanical Review, 52(2):117-155.

Windisch, P.G. 1992. Pteridófitas da Região norte ocidental do Estado de São Paulo (Guia para estudos e excursões). 2ºed. Unesp, São José do Rio Preto, São Paulo.

Xavier, S.R.S. & Barros, I.C.L. 2003. Pteridófitas ocorrentes em fragmentos de Floresta Serrana no estado de Pernambuco, Brasil. Rodriguésia, 54(83):13-21.

 

Citação: Góes-Neto, L.A.A. 2011. As licófitas e samambaias  do Parque Metropolitano de Pituaçu  - PMP (Salvador, Bahia, Brasil). Site: www.mundodabiologia.com.br. Acessado em: xx.xx.xxxx.

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