Botos (Sotalia guianensis) da Baía de Todos os Santos (BTS)

Por Luciano R. Alardo Souto *

* Biólogo, E-mail: lucianoalardo@yahoo.com.br

A baía de Todos os Santos (BTS) sempre foi um palco esplêndido, recrutando a atenção de nativos e turistas admirados por esse cenário belo e encantador. A sua orla, conhecida também como Recôncavo Baiano, é formada por praias belas e tropicais, resistentes mangues ainda conservados e um povo receptivo, simples e simpático. E no meio de tantos pontos positivos, um não poderia deixar de se destacar: a presença dos botos locais, os botos da baía de Todos os Santos. Respeitando a minha falta de imparcialidade, digo até que, a cena mais linda a ser vista na BTS, são os saltos das fêmeas de botos com suas crias, destacando-se durante o pôr-do-sol ao fundo, na foz do rio Paraguaçu (Figura 1). Espetáculo que apenas uma pequena parte da população baiana já presenciou, mas que dificilmente será esquecida.

Figura 1: Vista interior da foz do rio Paraguaçu na BTS, local onde os botos (Sotalia guianensis) se alimentam e realizam outras atividades comportamentais. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

O boto ou Sotalia guianensis (nome científico em latim), é uma espécie de cetáceo da família Delphinidae, com distribuição ao longo da costa tropical e subtropical das Américas do Sul e Central, sendo o limite norte em Honduras (15°58’N, 85°45’W; Edwards & Schnell, 2001) até Florianópolis, Santa Catarina, Brasil (27°35’S, 48°34’W; Simões-Lopes, 1988). Os botos apresentam preferência por águas rasas e estuarinas protegidas, barras de rio ou baías, como no caso da BTS (Figura 2).

Figura 2: Botos (Sotalia guianensis) em deslocamento na Barra do Paraguaçu. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

O boto é um cetáceo robusto, com nadadeiras peitorais grandes e nadadeira dorsal com formato triangular, localizando-se próximo ao centro do dorso. O comprimento máximo da espécie é de 220cm e o comprimento médio é de 170cm (Hetzel & Lodi, 1993), sendo que na Bahia, o maior boto encalhado media 209cm (Souto, 2006), estando dentro do esperado para a espécie. O boto possui de 52 a 72 pares de dentes (Hetzel & Lodi, 1993). A coloração predominante é cinza, com o ventre mais claro, chegando a ser branco ou cor-de-rosa nos filhotes. Da Silva e Best (1996) comentam que essa coloração rosa é pertinente à circulação subcutânea. Também se sabe que os espécimes adquirem uma coloração mais clara com a idade.

Na BTS, além do boto, existem registros de mais 12 espécies de cetáceos (baleias e golfinhos), representando praticamente metade das espécies registradas para todo o Estado da Bahia. A maioria é formada por animais oceânicos, no entanto, algumas espécies possuem hábitos costeiros e chegam a ter populações residentes dentro da BTS, como é o caso do boto (Figura 3), que merece uma atenção maior, e da baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) que a cada ano aumenta o número de animais registrados para o litoral baiano e com registros também em águas interiores. Objetivando divulgar um pouco mais os conhecimentos sobre a distribuição e bioecologia dos botos na BTS, foram realizadas entrevistas com moradores e pescadores ao longo do Recôncavo Baiano e os resultados parciais são expostos nos parágrafos abaixo. Outros dados complementares são fornecidos por revisão bibliográfica.


Figura 3: Grupo de botos (Sotalia guianensis) alimentando-se na foz do Paraguaçu, Baía de Todos os Santos. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

Diferente de Oliveira et al. (2008) que identificaram cinco nomes populares, o termo boto é, de forma unânime, o único utilizado na BTS (Souto & Reis, 2009), indo de acordo com Reis (2002) em Ilhéus e Souza e Begossi (2007) em São Paulo, que acharam o termo golfinho apenas para espécies afastadas e/ou de dimensões maiores. De acordo com as descrições detalhadas dos animais comentados, na BTS os pescadores definem apenas três formas de cetáceos: boto (S. guianensis), golfinho (gêneros de delfinídeos, como Tursiops e Steno) e baleias (misticetos em geral e cachalotes). No meio acadêmico atual, é sugerido à padronização do nome popular dos botos como boto-cinza, no entanto, as culturas têm suas raízes fincadas nos conhecimentos passados pelos mais velhos e termos contemporâneos e/ou “de fora” podem causar confusões e dissociações sobre o etnoconhecimento atual das comunidades do recôncavo baiano. O que a academia esquece, é que a nomenclatura científica adotada por Linneau foi criada justamente para evitar confusões desse tipo. Dessa forma, deixo aqui meu protesto e espero que em nível regional a nomenclatura adotada por futuros escritores e/ou pesquisadores seja unicamente a de “boto” ou “botos”.


Figura 4: Distribuição dos botos (Sotalia guianensis) na baía de Todos os Santos.

A BTS é a segunda maior baía do Brasil, tamanho esse, que dificulta os trabalhos conservacionistas em prol dos botos. No total, 13 municípios integram o Recôncavo Baiano e juntos totalizam mais de 50 comunidades e distritos espalhados nessa imensa baía. Em relação às áreas de ocorrência dos botos, apenas três comunidades relataram a ausência de botos, apesar de conhecerem o mesmo e o chamarem por esse nome, sendo elas: Mutá e Ilha da Banca (ambas na contra costa da ilha de Itaparica) e Passé (Figura 4). Na comunidade de Acupe, um entrevistado disse: “… há muito, muito tempo que aqui ta sem boto, desde que fez a Pedra do Cavalo (barragem hidrelétrica)… antes apareciam muitos entre 8 e 10h, hoje só raramente às 12h”. Em São Francisco do Conde também foi relatada uma maior ocorrência anos atrás. Nas demais comunidades os botos ocorrem durante todo o ano, com picos no verão (ilha de Maré e Jaguaribe) e no inverno (rio da Dona e Saúbara). Baseado em estudos comportamentais já realizados, pode-se afirmar que a área do canal do rio Paraguaçu é de suma importância para a vida do boto Sotalia guianensis na BTS, constituindo uma área prioritária de deslocamento e alimentação. Isto se deve provavelmente, em função da grande disponibilidade de recursos pesqueiros existentes, característica de ambientes estuarinos (Reis et al., 2006; Spínola, 2006; Batista, 2008), sendo também de importância relevante na conduta social, no ensino e no aprendizado entre adultos e crias (Reis et al, 2007).

De acordo com as pesquisas atuais, o boto, Sotalia guianensis, é o único cetáceo com populações residentes durante todo o ano na BTS (Batisda et al., 2008; Batisda, 2008). Os grupos variam de dois a mais de 20 animais, sendo que na Barra do Paraguaçu já foram observados mais de 100 animais em duas ocasiões (M.S.S. dos Reis, Obs. Pess.). Os horários de maior ocorrência foram os da manhã, seguidos da noite e da tarde. Em uma análise geral, pode-se dizer que os botos ocorrem de forma continua e sem períodos sazonais bem definidos ao longo do ano.

Devido às casualidades do destino, a BTS tem sido alvo de intensas atividades pesqueiras, turísticas e industrial-empresariais, o que gera diversos riscos aos botos. Assim, é de suma importância realizar trabalhos que envolvam o monitoramento da espécie ao longo da BTS, uma vez que, de acordo com a ecologia comportamental, podem ocorrer modificações no comportamento animal, principalmente em animais topo de cadeia como é o caso dos botos. Esses também podem indicar em seu conteúdo, alterações no ecossistema em questão e, inclusive, podem revelar impactos ambientais depreciativos. Tratando-se do consumo de carne de boto, durante entrevistas realizadas no interior da BTS, apenas um pescador (rio da Dona, Jaguaripe) confirmou ter comido a carne em 2007, após encontrarem um animal morto na rede de espera (Figura 5; Souto & Reis, 2009). Anteriormente a esse registro, apenas em 1992, Reis e Queiroz observaram essa prática na BTS. De qualquer forma, considero o consumo local de botos na BTS como fato raro e com poucos adeptos, não havendo necessariamente essa prática na região.

Figura 5: Vértebra lombar de boto (Sotalia guianensis), capturado acidentalmente em rede de espera no rio da Dona, Município de Jaguaribe, BTS. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

No que tange a reprodução, a presença de filhotes foi relatada em mais da metade das localidades visitadas e sem períodos sazonais definidos. Na ilha de Madre de Deus, os pescadores associam os saltos como parte do treinamento dos filhotes. Como os filhotes são avistados em todas as estações, a reprodução é considerada contínua por todo o ano, sem períodos com picos reprodutivos. Apesar dessa regularidade, pouco se conhece acerca do crescimento uterino e desenvolvimento específico dos botos e de cetáceos em geral (Reidenberg & Laitman, 2000). Em relação a S. guianensis, apenas nas regiões sudeste e sul do Brasil foram realizados estudos enfocando parâmetros reprodutivos, estimativa de idade e o crescimento da espécie (Ramos et al. 2000; Rosas & Monteiro-Filho, 2002). Souto e Brito (2009) investigando o desenvolvimento de fetos e filhotes, observaram que em fetos menores de um mês, a nadadeira caudal ainda estava em desenvolvimento, olhos protundidos e com o rostro ainda não definido. As nadadeiras dorsais possuíam cinco dígitos bem visíveis. Já em fetos com idade estimada de 7,5 meses, o esqueleto já se apresenta bem calcificado, possuindo a forma característica dos botos, com todas as variáveis corporais bem definidas. Embora o número amostral não tenha sido grande, as informações reportadas por Souto e Brito (2009) são as primeiras descrições desse nível de desenvolvimento na Bahia. Trabalhos mais aprofundados sobre os parâmetros reprodutivos e ontogênicos da espécie de forma geral, até o momento é uma laguna, necessitando de mais dados sobre essas temáticas. Outras áreas de pesquisas que ainda estão em desenvolvimento inicial na Bahia, são os aspectos morfo-anatômicos, iniciados por Aroucha em 1998 e Souto (2006), logo em seguida.

O boto é considerado pelo Plano de Ação de Mamíferos Aquáticos do Brasil como “Dados Insuficientes”, necessitando de mais estudos sobre a biologia da espécie (IBAMA, 2001). Algumas das recomendações desse Plano são: a realização de trabalhos sobre estimativa de abundância populacional, caracterização do hábitat preferido e dos movimentos diários e sazonais para definição de áreas mínimas para conservação da espécie, além da avaliação do impacto das interações com atividades pesqueiras.

Figura 6: Vista lateral do crânio de boto (Sotalia guianensis) encalhado
em Salvador, Baía de Todos os Santos. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

Referências

Aroucha, E.C. 1998. Sotalia fluviatilis, Gervais 1853, o boto da baía de Todos os Santos: primeiros conhecimentos. Monografia. Universidade Federal da Bahia. Salvador, Bahia.

Batista, R.L.G. 2008. Uso de área e associação entre os botos-cinza Sotalia guianensis (van Benédén, 1864) do estuário do rio Paraguaçú-BA.  Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual De Santa Cruz. 74pp.

Batista, R.L.G.; Le Pendu, Y.; De Jesus, A.C.M.; Reis, M.S.S.; Schiavetti, A. 2008. Estudo preliminar dos padrões de associação entre os botos-cinza, Sotalia guianensis (van Bénéden, 1864), no estuário do rio Paraguaçu-BA, Brasil. 220-227p. In: Rossi-Santos, M.R. & Reis, M.S.S. (Coord.). II Workshop do Nordeste Pesquisa e Conservação de Sotalia guianensis. Ilhéus: Editus/UESC. 276pp.

 

Da Silva, V.M.F. & Best, R.C. 1996. Sotalia fluviatilis. Mammalian Species. 527:1-7.

Edwards, H.H. & Schnell, G.D. 2001. Status and ecology of Sotalia fluviatilis in the Cayos Miakito Reserve, Nicaragua. Marine Mammal Science, 17(3):445-472.

Hetzel, B. & Lodi, L. 1993. Baleias, Botos e Golfinhos: Guía de Identificação para o Brazil. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro: 174-176.

Ibama. 2001. Mamíferos Aquáticos do Brasil : Plano de Ação. Versão II. Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis. IBAMA, Brasília-DF.

Oliveira, F.; Beccato, M.A.B.; Nordi, N.; Monteiro-Filho, E.L.A. 2008. Etnobiologia: Interfaces entre os conhecimentos Tradicional e Científico. P.233-261. In: Monteiro-Filho, E.L.A. & Monteiro, K.D.K.A. (Orgs.). Biologia, ecologia e conservação do boto-cinza. São Paulo: Páginas & Letras. 277pp.

Ramos, R.M.A., DI Beneditto, A.P.M.; Lima, N.R.W. 2000. Growth parameters of Pontoporia blainvillei and Sotalia fluviatilis (Cetacea) in northern Rio de Janeiro, Brazil. Aquatic Mammals 26:65-75

Reidenberg, J.S. & Laitman, J.T. 2000. Prenatal development in cetaceans. In: Perrin, W.F.; Würsig, B.; Thewissen, J.G.M. (Eds.). Encyclopedia of Marine Mammals. Californi, Academic Press.

Reis, M.S.S. 2002. O boto Sotalia fluviatilis (Gervais, 1853) (Cetácea, Delphinidae) no litoral de Ilhéus, Bahia: comportamento e interações com as atividades pesqueiras. Dissertação de Mestrado. UESC. 83pp.

Reis, M.S.S.; Dias, T.L.; Alencar, A.P.; Reis, J.A.; Menezes, B.; Lara, D.D.; Spinola, J.L. 2006. Ecologia comportamental do boto Sotalia guianensis na Baía de Todos os Santos, Bahia. P.56. In: Siciliano, S.; Borobia, M.; Barros, N.B.; Marques, F.; Trujilio, F.; Flores, P.A.C. (Eds.). Workshop on Research and Conservation of the Genus Sotalia. Book of Abstracts, Rio de Janeiro. 64pp.

Reis, M.S.S. & Queiroz, E.L. 1992. Observações, distribuição e capturas acidentais de Sotalia fluviatilis (Gervais, 1853) na baía de Todos os Santos, Bahia, Brasil. In: Resumos da V Reunião de Trabalho de Especialistas em Mamíferos Aquáticos da América do Sul. Buenos Aires. 54p.

Rosas, F.C.W. & Monteiro-Filho, E.L.A. 2002. Reproduction of the estuarine dolphin (Sotalia guianensis) on the coast of Paraná, southern Brazil. Journal of Mammalogy, 83(2):507-515.

Simões-Lopes, P. C. 1988. Ocorrência de uma população de Sotalia fluviatilis Gervais, 1853 (Cetacea, Delphinidae) no limite sul de sua distribuição, Santa Catarina, Brasil. Biotemas, 1(1):57-62.

Souto, L. R. A. 2006. Morfologia sincraniana do boto (Sotalia guianensis) (Cetacea, Delphinidae) nos Estados da Bahia e Sergipe, Nordeste do Brasil. Monografia. Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Católica do Salvador. Salvador. 75pp.

Souto, L. R. A. & Brito, A. P. D. 2009. Biometria fetal e início de calcificação óssea em fetos de Sotalia guianensis oriundos de fêmeas encalhadas no litoral da Bahia, Brasil. In: VI Encontro Nacional sobre Conservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (ENCOPEMAQ) e II Simpósio Nordestino de Mamíferos Aquáticos (SINEMA), Salvador. Livro de Resumos: Ações prioritárias para a Conservação, v. 1. p.20.

Souto, L. R. A. & Reis, M. S. S. 2009. O boto, Sotalia guianensis, na Baía de Todos os Santos (Bahia, Brasil): áreas de ocorrências e um atual retrato etnoecológico. In: VI Encontro Nacional sobre Conservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (ENCOPEMAQ) e II Simpósio Nordestino de Mamíferos Aquáticos (SINEMA), 2009, Salvador. Livro de Resumos: Ações prioritárias para a Conservação, v. 1. p.89.

Souza, S.P. & Begossi, A. 2007. Whales, dolphins or fishes? The etnotaxonomy of cetaceans in São Sebastião, Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, 3(9):1-15.

Spínola, J.L.; Reis, M.S.S.; Batista, R.G.; Foester, T.; Bauer, L.M.; Fernandes, L.C. 2008. A influência de embarcações sobre a presença e o comportamento do boto-cinza (Sotalia guianensis) no estuário do rio Paraguaçu, Estado da Bahia. P.268-274. In: Rossi-Santos, M.R. & Reis, M.S.S. (Coord.). II Workshop do Nordeste Pesquisa e Conservação de Sotalia guianensis. Ilhéus: Editus/UESC. 276pp.

Citação: Souto, L.R.A. 2010. Botos (Sotalia guianensis) da Baía de Todos os Santos (BTS). Site: www.mundodabiologia.com.br. Acesso em: xx.xx.xxxx.

1 Comment to “Botos (Sotalia guianensis) da Baía de Todos os Santos (BTS)”

  1. By Jorge Dias, 11 de abril de 2011 @ 14:49

    É bom ver alguém falar dos Sotalia. Cresci em Maragojipe e me acostumei a observar os botos “pescando” próximos ao manguezal. Dava pra vê-los da ponte onde o navio Maragojipe atracava, sempre na preamar. Era espetacular também chegar a Maragojipe às 5 da tarde quando os botos começavam a seguir o navio, com seu comportamento característico. Começavam próximos ao forte de Salaminas e não durava mais que cinco minutos; também em frente à Barra do Paraguassu. Com tristeza percebemos a diminuição gradativa da população com o uso constante de bombas. Ainda se vê alguns espécimes, mas não mais com a mesma frequência e quantidade de 20 anos atrás. É uma pena!!!
    Obrigado por essa matéria!!!

Feed RSS para comentários sobre este post. TrackBack URI

Deixe seu comentário