Frágeis belezas de Salvador

Por MSc. George J. G. Santos *


* Biólogo. Universidade Federal de Pernambuco – UFPE Departamento de Zoologia, Centro de Ciências Biológicas. Laboratório de Porífera – LABPOR. Av. Nelson Chaves, s/n, Cidade Universitária, Recife – PE CEP: 50373-970. E-mail: balgeorge42@yahoo.com.br

 

Com seus 75 km de orla, a cidade de Salvador (BA) possui vários tipos de praias. Desde as populares praias arenosas, passando pelas rochosas às piscinas de maré (Fig. 1). Estas últimas são abundantes durante as marés baixas exibindo a beleza dos organismos que vivem a poucos centímetros de profundidade.

 

Figura 1: Piscinas de maré (poças de maré) numa das praias da Barra, Salvador (BA).

 

Um exemplo são os gastrópodes (Filo Mollusca; Classe Gastropoda) também conhecidos como “lesmas do mar” (Fig. 2). São geralmente carnívoros, alimentando-se de outros invertebrados e algumas espécies podem se alimentar dos ovos ou indivíduos adultos de outros moluscos.

 

Figura 2: Magnífica “Lesma do mar” nas águas da Barra, Salvador (BA).

 

Dentre os gastrópodes, existem alguns representantes pequenos que vivem sob pedras ou em “locas” (Figs. 3A e B).

 

Figura 3: A. Minúsculo e delicado Nudibrânquio; B. Detalhe da sua bela coloração.

 

São os nudibrânquios (Ordem Opisthobranchia). Estes apresentam uma coloração que permite sua camuflagem nos recifes tornando-os praticamente invisíveis para os olhos destreinados (Fig. 4).

 

Figura 4: Diversidade de Nudibrânquios em piscinas de maré da Barra, Salvador (BA).

 

A partir da sua alimentação a base de esponjas, ascídias, briozoários, octocorais, e outros moluscos, os nudibrânquios adquirem diversos compostos químicos (Granato et al., 2005). Existindo também no grupo, espécies que podem biossintetizar produtos naturais ou seja, toxinas (Cimino et al., 2001). Por concentrarem quantidades apreciáveis destes compostos para sua defesa, estes moluscos compõem uma fonte importante de produtos naturais bioativos (Granato et al., 2000). Devido à delicadeza de suas formas e beleza das cores, são consideradas entre as mais belas criaturas do ambiente marinho.

Segundo Granato et al. (2000) o primeiro levantamento de espécies de nudibrânquios para o Brasil foi feito entre as décadas de 40 e 60 por Eveline e Ernest Marcus. Infelizmente, nenhum levantamento foi realizado atualmente para o Estado da Bahia, sendo este apenas ponto de coleta (Gosliner et al., 2008). Poucos banhistas das piscinas naturais de Salvador conseguem visualizá-los in situ, portanto devem ficar alertas para que enquanto desfrutam do local, preservem o ambiente em que vivem estes belos moradores.  E então, ao conhecer, poderemos nos orgulhar de nossa biodiversidade, preservando-a e quem sabe, futuramente, descobrir alguma aplicação para seus compostos naturais utilizando-os de forma sustentável.

 

AGRADECIMENTOS: O autor deste trabalho é especialmente grato ao Dr. Cláudio L. S. Sampaio (UFAL) pelas concessões das fotos e a mestranda Helcy Galindo (UFPE) pelas sugestões na revisão do texto.

 

REFERÊNCIAS

Cimino, G.; Ghiselin, M.T.; McClintock, J.B.; Baker, B.J. (eds.). 2001. Marine Chemical Ecology. CRC Press: Boca Raton, 115-154.

Gosliner, T.M.; Cervera J.L.; Ghiselin, M.T. 2008. Scientific Exploration in the Mediterranean Region Biodiversity of the Mediterranean Opisthobranch Gastropod Fauna: Historical and Phylogenetic Perspectives. Proceedings of the California Academy of Sciences, 59:117-137.

Granato, A.C.; Berlinck, R.G.S.; Schefer, A.B.; Magalhães, A.; Ferreira, A.G.; de Sanctis, B.; Freitas, J.C.; Migotto, A.E.; Hajdu, E. 2000. Quimica Nova, 23: 594.

Granato, A.C.; de Oliveira, J.H.H.L; Seleghim, M.H.R.; Berlinck, R.G.S.; Macedo, M.L.; Ferreira, A.G.; da Rocha, R.M.; Hajdu, E.; Peixinho, S.; Pessoa, C.O.; Moraes, M.O.; Cavalcanti, B.C. 2005. Natural products from the ascidian Botrylloides giganteum, from the sponges Verongula gigantean, Ircinia felix, Cliona delitrix and from the nudibranch Talnbja eliora, from the Brazilian coastline. Quimica Nova, 28: 192-198.

 

Citação: Santos, G.J.G. 2011. As frágeis belezas de Salvador. Site Mundo da Biologia – www.mundodabiologia.com.br . Acessado em xx/xx/xxxx.

 


3 Comments to “Frágeis belezas de Salvador”

  1. By Daniela Torres, 22 de abril de 2011 @ 12:12

    Frágeis demais esses encantos da Bahia. Que vontade de poder fotógrafa-los.

  2. By José, 23 de abril de 2011 @ 20:12

    Que pena os gestores públicos permitirem a destruição do ecossistema com o carnaval nas praias do Farol e Porto da Barra.

    Cadê a sustentabilidade na prática?Será que só ficou no discurso?

  3. By Helcy, 24 de abril de 2011 @ 17:49

    Realmente, são animais incríveis e belos, que precisam ser estudados, já que pouco se sabe sobre a biologia e ecologia dos mesmos. Mas para isso é necessária a preservação de seus habitats , com a ajuda de governantes e população. Excelente artigo e lindas fotos! Parabéns!
    Só me fez querer ainda mais mergulhar em águas baianas pra fotografar e avistar os nudibrânquios e outros animais marinhos.

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