O CACHALOTE-ANÃO (Kogia sima) NA BAHIA, BRASIL

Por Luciano R. Alardo Souto *

* Biólogo, E-mail: lucianoalardo@yahoo.com.br

 

Os cachalotes sempre causaram grandes, diversas e divertidas criações imaginárias, tal como a história que virou um grande clássico no mundo literário, o lendário Moby-Dick. O mesmo era um cachalote (Physeter macrocephalus) albino e enorme, que segundo a lenda, engoliu um pescador com barco e tudo, mais após um tempo, viraram amigos e Moby-Dick acabou devolvendo-o para a Terra.

 

Cachalote-anão (Kogia sima). Foto: httpwww.cms.int.

 

Mas os cachalotes nem sempre são animais grandes, como as enormes e belas baleias, muito menos, fáceis de serem avistados como o “velho” Moby. Estamos falando dos pequenos “primos” do Moby-Dick, os cachalotes anão (Kogia sima) e pigmeu (K. breviceps). Ambos não chegam a medir nem 1/3 do tamanho do Moby, chegando no máximo a 2,6 e 3,6 metros, respectivamente. Apesar de nunca terem sido avistados no litoral baiano, o cachalote-anão é mais comum na Bahia do que o cachalote-pigmeu, já que a maioria dos encalhes (quando um desses animais encalha na praia), são da primeira espécie, alem de ser o Estado onde existem mais registros no Brasil. Isso mesmo! Suspeitamos até, que o cachalote-anão, seja uma espécie residente em nosso litoral.

Foi aqui na Bahia, mais precisamente na praia de Itapuã (Salvador), que encalhou o menor filhote já visto no mundo (Souto et al., 2009), e mesmo assim, quase nada sabemos sobre essa “exótica” espécie de cetáceo odontoceto (ou golfinho com dentes).

 

Menor filhote de cachalote-anão (Kogia sima) conhecido no mundo e encalhado em Itapuã, Salvador, Bahia, Brasil. Foto: Souto et al., 2009.

Entre os “pratos” prediletos do cachalote-anão, estão as lulas e os polvos pelágicos, seguidos por camarões e peixes, todos de profundidades elevadas. Por falar em seguir, tem outro animal que parece estar sempre perto desses pequenos cachalotes. Eles são os tubarões-charuto (Isistius spp.), que investem rápidas mordidas em várias partes do corpo desses animais. Apesar disso, os cachalotes sobrevivem, pois as mordidas são pequenas e geralmente não causam ferimentos mortais, sendo reconhecidas pelo seu aspecto esférico e pequeno (Souto et al., 2007).

 

Cachalote-pigmeu (Kogia breviceps) encalhado em Guaimbim, Valença, Bahia e passando por cuidados de emergência. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

 

Para os cachalotes, risco maior do que os tubarões-charuto provém de outro animal, conhecido popularmente como bicho-homem (Homo sapiens) e de seus derivados. O bicho-homem com suas redes quilométricas de pesca estendidas nos mares acabam predando vários cachalotes-anão, levando-os a morte por afogamento. Em muitos espécimes coletados mortos nas praias, são encontrados diversos sacos plásticos, além de embalagens e outros derivados do petróleo. Infelizmente, essa realidade ainda esta longe de ser um passado sombrio, servindo atualmente apenas como fonte de sensibilização para o bicho-homem.

Observar os cachalotes em ambiente natural é uma questão de sorte, muita vontade e um mar calmo, sem ventos e sem ondas. Eles aparecem de forma rápida na superfície e não tem o costume de darem muitos saltos, como outros golfinhos brasileiros. Mais uma coisa é certa, eles estão em nosso litoral e para podermos observá-los, basta uma única ação: a conservação dos mares! Os cachalotes agradecem.

SOUTO, L. R. A.; LEMOS, L. M.; VIOLANTE, T. H. A. S.; MAIA-NOGUEIRA, R. 2009. Record of a neonate dwarf sperm whale, Kogia sima (Owen, 1866) stranded on the coast of Bahia, Northeastern Brazil. The Latin American Journal of Aquatic Mammals, 7:105-106.

SOUTO, L. R. A.; OLIVEIRA, J. G. A.; MAIA-NOGUEIRA, R.; NUNES, J. A. C. C.; SAMPAIO, C. L. S. 2007. Analise das mordidas de tubarão-charuto, Isistius spp. (Squaliformes; Dalatiidae) em cetáceos (Mammalia; Cetacea) no litoral da Bahia, Nordeste do Brasil. Biotemas, 20(1):19-25.

Citação: Souto, L.R.A. 2010. Cachalote-anão (Kogia sima). Site: www.mundodabiologia.com.br. Acesso em: xx.xx.xxxx.

 

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