Ouriço-Rei: um Rei sem identidade.

Por Biól.  MSc. George J. G. Santos *

 

* Biólogo. Universidade Federal de Pernambuco – UFPE Departamento de Zoologia, Centro de Ciências Biológicas. Laboratório de Porífera – LABPORAv. Nelson Chaves, s/n, Cidade Universitária, Recife – PE CEP: 50373-970. E-mail: balgeorge42@yahoo.com.br

Sempre que acontecem as “redes de arrasto” em praias urbanas há grandes expectativas para todos aqueles que se envolvem com a atividade, além do público que a assiste. Pescadores desejam saber o que veio de proveitoso e o público: o que veio de curioso. No entanto esse tipo de pesca provoca danos nos ecossistemas por onde passa. Esponjas, Corais e Ascídias são exemplos de organismos que geralmente são quebrados ou arrancados do seu habitat pela atividade. Alguns são devolvidos ao mar, outros consumidos ou, ás vezes, vendidos clandestinamente a lojas de aquários como acontece na cidade do Salvador (BA). Um exemplo são os popularmente chamados de “Ouriço-Rei” (Gênero Diadema; Família Diadematidae), raro em águas rasas e que custam em média cerca de R$ 20,00 (Fig. 1). De acordo com Portillo et al., (2000) espécies do gênero Diadema já são utilizadas na aquicultura em diversos países europeus assim como, em estudos de bioprospecção. Diferente do Brasil, nesses países, provavelmente, esses ouriços já estão resolvidos taxonomicamente e as pesquisas já avançam em outras linhas.

 

Figura 1: “Ouriço-Rei” (Gênero Diadema) recém coletado por rede de arrasto em 4 de março de 2010 no Porto da Barra, Salvador (BA). Foto: George Santos.

 

No Museu de Zoologia da UFBA, por exemplo, existe apenas um exemplar de “Ouriço-Rei”, carecendo de mais espécimes para que assim possa resolver seu estado taxonômico. Enquanto isso, dezenas de ouriços são vendidos todos os meses no mercado de Salvador, às escuras. Por fim, em conseqüência também das redes de arrasto, estão destruindo ecossistemas sem sabermos quem são (eram) os seus habitantes. Surgem algumas dúvidas:

 

• Pescadores ingenuamente (ou não) colaboram com o comércio ilegal?

• Será que essa espécie de ouriço pode ser nova, exótica ou ameaçada de extinção?

• Se existem Leis Municipais, Estaduais e Federais estas atuam em estabelecimentos que compram e vendem animais marinhos em Salvador?

 

Caso queira fazer uma denúncia em relação à venda ilegal de animais marinhos, ligue para a Linha Verde do IBAMA: 0800-61 8080.


Problemas como o comércio ilegal, impedimentos taxonômicos e destruição de habitat leva-nos a uma única pergunta final: como ser “Rei” neste cenário? Como espécies do gênero Diadema já estão sendo alvos em estudos de Bioprospecção em outros países, no Brasil estas também podem ser promissoras. Acidentes com esses ouriços já foram até registrados revelando seu potencial tóxico (químico). Relato de um caso real, onde um mergulhador sofre acidente sério com ouriço-do-mar: “Um homem de 47 anos de idade estava mergulhando quando, após um contato brusco com um ouriço (Diadema sp.), sofreu a penetração de cerca de 30 espinhos em seu joelho direito. Conseguiu remover a maioria deles, mas passados seis dias seu joelho começou a doer. Três dias depois, apresentou disfagia (dificuldade de deglutição) e disartria (incapacidade de articular as palavras), que progrediram para uma parestesia facial bilateral (sensação de “formigamento” em ambos os lados da face). Esta, por sua vez, foi-se agravando nas duas semanas seguintes, sendo necessária a respiração artificial. Precisou de três meses no hospital para recuperar-se, mas uma leve parestesia facial residual ainda permaneceu até dez meses após o acidente…”

 

Referências

Novaes, F.S. Acidente de Mergulhador. http://www.sportsub.com.br/acidente_de_mergulhador.asp (acessado em 28 de fevereiro de 2011).

Portillo, A., Ruiz-Larrea, F., Zarazaga, M., Alonso, A., Martinez, J.L. e Torres, C. (2000). Macrolide resistance genes in Enterococcus spp, Antimicrobial Agents and Chemotherapy, 44(4), Abril, pp. 967-971.

 

Citação: Santos, G.J.G. 2011. Ouriço-Rei: um Rei sem identidade. Site: www.mundodabiologia.com.br. Acessado em: xx.xx.xxxx.

3 Comments to “Ouriço-Rei: um Rei sem identidade.”

  1. By Eduardo Leal Esteves, 15 de março de 2011 @ 09:50

    Muito bom o artigo Bal! Meus parabéns! Bastante informativo e interessante! Eu já vi um ouriço com espinhos bastante longos e finos que eu suponho que fosse do gênero Diadema em um naufrágio situado em Pernambuco. Abraços.

  2. By Thiago Gavião, 18 de março de 2011 @ 13:14

    Fala BM!! Gostei do artigo sobre os bichinhos. Eu particularmente já presenciei o fato no próprio Porto da Barra. Rapaz, existe um lugar próximo daí que pode ser constatada a ocorrência deste gênero, e quem sabe até da espécie em questão: no Iate Clube da Bahia. Já mergulhei por ali e vi alguns ouriços “diferentes” logo alí na beirada, perto do acesso à piscina do clube.
    Bem, o que mais me interessou no artigo, além da predação por parte do homem, foi justamente o índice de toxidade deste animal. Não sabia que afetava tão bruscamente o sistema nervoso. Muito interessante mesmo.
    Parabéns, BM.
    Até mais,
    Gavião.

    • By George, 24 de março de 2011 @ 09:30

      Valeu meu querido e saudoso Gavião. Toda essa região que citastes apresenta vários destes organismos (pretos e grandes). Mas o “ouriço rei” eu nunca o vi in situ.
      Obrigado pelo apoio, breve estou submetendo outro… Desta vez com MOLUSCOS!
      Abraços irmão!

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