Um estranho caso do coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.)

Por Luiz Armando de Araújo Góes-Neto *

* Biólogo. Mestrando em Botânica Tropical - Museu Paraense Emílio Goeldi – MCT, Campus de Pesquisa, Coordenação de Botânica. Av. Perimetral 1901, Terra Firme, Belém-PA. CEP: 66017-970. E-mail: netto_marley@hotmail.com .

 

 

As palmeiras pertencem à família Arecaceae (ordem Arecales) e são vegetais de extrema importância na vida dos seres humanos desde as mais antigas civilizações. Purseglove (1972) comenta que “a ampla multiplicidade de sua utilização econômica colocam-na em segundo lugar dentre as plantas úteis, perdendo apenas para as gramíneas”.

 

Figura 1: Coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.) bifurcado, ilha de Boipeba, Cairú, Bahia. Foto: Luciano R. A. Souto.

 

Realmente sua importância econômica é enorme até os dias de hoje. Algumas comunidades ribeirinhas amazônicas, por exemplo, sobrevivem exclusivamente do plantio e aproveitamento de palmeiras como o açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.). Além desta, encontramos outras espécies muito utilizadas, como o dendê africano (Elaeis guineensisJacq.), o babaçu (Attalea brasiliensis Glassman), a piaçava (Attalea funifera Mart. ex Spreng.), a pupunha (Bactris acanthocarpa Mart.), dentre outras.

De acordo com Lorenzi et al. (2004), a origem da palavra palma é remota. Segundo estes autores, os povos itálicos aplicavam-na à tamareira (Phoenix dactylifera L.) da África Mediterrânea e do Oriente Médio; os gregos chamavam-na de fóinix palavra de origem fenícia. Esta palavra por influência árabe e aramaica foi aplicada à antiga cidade turca Palmira, com o significado de “cidade onde haviam palmas”.

Apesar de serem amplamente distribuídas por todo o mundo desde 44o N a 44o S de latitude, do nível do mar até 4.000 m de altitude e de florestas tropicais a áreas desérticas, as palmeiras simbolizam popularmente a paisagem tropical (Jones, 1995). Isto se deve ao fato de ocorrerem principalmente nos trópicos e sub-trópicos, sendo especialmente diversas na Amazônia e Malásia e pouco representadas na África, com exceção da ilha de Madagascar que conta com dois gêneros e um grande número de espécies (Uhl & Dransfield, 1999; Lorenzi et al. 2004). Diversos gêneros de palmeiras apresentam ocorrência restrita a pequenas áreas, indicando habilidade de ocupação de nichos específicos (Jones, 1995). Sua aparência diferenciada e simples arquitetura promovem, de modo geral, o seu fácil reconhecimento.

Por sua beleza, porte e distinção, estes vegetais são reconhecidas como “príncipes” entre as plantas e foram assim inicialmente denominadas por Linnaeus.

Esta família está representada por 190 gêneros e cerca de 2.600 espécies, com os seus registros fósseis mais antigos datados do final do Cretáceo, podendo, porém, ter existido antes deste período (Jones, 1995). No Brasil estão representadas por 208 espécies nativas e 175 espécies exóticas (Lorenzi et al. 2004).

Dentre as espécies de palmeiras encontramos o coco-da-bahia (Cocos nucifera L.), sendo esta, sem dúvida, a de maior importância econômica em todo o mundo. É notável o número de produtos obtidos da industrialização do fruto, como copra, óleo, ácido láurico, leite de coco, farinha, água de coco, fibra e ração animal (Lins et al. 2004). Estas monocotiledôneas (Liliopsida) caracterizam-se principalmente pelo caule simples (podendo chegar a 20 m de altura); folhas com pinas regularmente distribuídas e inseridas no mesmo plano; inflorescências andróginas; frutos ovóides do tipo drupa, com epicarpo delgado, mesocarpo fibroso e seco e endocarpo muito rígido portando três orifícios germinativos, endosperma líquido que na maturidade endurece e possui a função de nutrir o embrião. Esta apresenta ampla distribuição no território nacional, principalmente na costa litorânea nordestina.

 

A origem do coco ainda é controversa, havendo basicamente quatro vertentes teóricas principais. Esta divergência dá-se principalmente, pelo fato da distribuição geográfica desta espécie ser muito ampla, já que a fácil flutuabilidade do fruto e a interferência do homem na sua dispersão, dificultam o real entendimento do seu ponto de origem.

 

Figura 2: Coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.) bifurcado, ilha de Boipeba, Cairú, Bahia.  Foto: Luciano R. Alardo Souto.

 

Em seus estudos pioneiros, Alphonse de Candolle (1886) sugeriu que a origem do coco seria o Novo Mundo, esta proposta foi seguida por Cook (1910). Posteriormente, Beccari (1963) surgiu com uma nova proposta, ele sugeriu que a origem seria asiática ou polinésia, já Moore (1973) apresentou evidências que sugeriam que a Melanésia seria o local de origem do coco, e por último Harries (1978) sugeriu que o oeste do Pacífico seria este local.

Com o aperfeiçoamento da análise molecular e da cladística, os estudos filogenéticos ficaram cada vez mais precisos, geralmente apresentando dados muito interessantes. Este é o caso do estudo realizado por Gunn (2004), onde o autor afirma que a origem do coco é a América do Sul, provavelmente o nordeste brasileiro. Este estudo baseou-se na análise do gene nuclear prk de 34 espécimes pertencentes a todos os 20 gêneros da subtribo Cocoeae (a qual o coco-da-bahia faz parte), além de táxons externos. O autor sugere que durante o Paleoceno o coco se diversificou e espalhou-se até o leste da África e Madagascar, e de lá para a Índia, Australásia e Nova Zelândia através das correntes antárticas, durante o Oligoceno.

 

Curiosidades

Este coqueiro “bicéfalo” (como o autor da foto costuma se referir) foi registrado na Ilha de Boipeba (Cairu – BA) (Figuras  1, 2 e 3). A primeira impressão que tive ao ver a foto foi de espanto, já que nunca havia visto algo assim, porém depois de uma breve pesquisa na rede mundial de computadores constatei que alguns espécimes semelhantes a este já foram registrados em outros lugares do Brasil e do mundo.

 

Figura 3: Coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.) bifurcado, ilha de Boipeba, Cairú, Bahia. Foto: Luciano R. A. Souto.

De acordo com Secco (com. pess.) alguns moradores do interior do estado do Pará relacionam este fato à ação de raios oriundos de tempestades, muito comuns na região amazônica. Porém, a ação de fitopatógenos provavelmente pode estar relacionada a este intrigante fato. Como a diversidade de patógenos é bastante ampla (vírus, bactérias, fungos, protozoários, nematóides, ácaros, insetos, dentre outros), diversas também são as sintomatologias apresentadas pelas plantas. De um modo geral estes sintomas estão divididos em três grupos principais:

I – Sintomas Histológicos – são aqueles que desencadeiam alterações a nível celular (p. ex. granulose, plasmólise, vacuolose);

II – Sintomas Fisiológicos – são aqueles que desencadeiam alterações fisiológicas na célula (p. ex. respiração, transpiração, síntese de carboidratos, síntese de proteínas);

III – Sintomas Morfológicos – são aqueles que desencadeiam alterações anatômicas, estes sintomas estão divididos em duas categorias:  - sintomas necróticos – são aqueles que antecedem a morte ou são a morte propriamente dita dos tecidos (p. ex. amarelecimento, anasarca, cancro, gomose, perfuração);  - sintomas plásticos – são aqueles que envolvem um sub ou super-desenvolvimento dos tecidos (p. ex. albinismo, clorose, mosaico, epinastia, galha, superbrotamento).

Utilidades

O coqueiro é cultivado em aproximadamente 11,6 milhões de hectares distribuídos em cerca de 86 países (Presley, 1992). As principais áreas de produção estão na Ásia e ilhas do Pacífico, onde se concentram cerca de 85%  dos cultivos, sendo a Indonésia, as Filipinas e a Índia os principais produtores (Presley, 1992). O coco também é importante em áreas litorâneas e ilhas na América, onde se concentra cerca de 7% da produção mundial, sendo os principais produtores o México e o Brasil (Presley, 1992).

De acordo com Presley (1992), o coco é predominantemente uma cultura de pequenos produtores, sendo sua produção voltada para o consumo local destas regiões. No Brasil o coco é produzido principalmente na região nordeste e mais recentemente também na região norte. Os frutos verdes são extraídos e consumidos in natura, porém uma grande parte é direcionada à industrialização principalmente de leite-de-coco e coco ralado (Cuenca, 1994).

 

Figura 4: Coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.) no rio do Inferno, ilha de Boipeba, Cairú, Bahia. Foto: Luciano R. Alardo Souto.

 

Em média, cada fruto de coco verde produz 1,5 Kg de resíduos de cascas (Passos, 2005). Segundo este autor “… a destinação sustentável das cascas de coco verde pode ser conseguida com o uso das fibras das cascas do fruto na obtenção de compósitos que podem ser empregados de maneira diversificada, dependendo da natureza dos materiais usados nas formulações. A possibilidade de usos múltiplos das fibras de coco, tais como incorporação ao cimento e ao solo e reforço de biopolímeros, comprovam o potencial de uso das fibras do fruto. Novas aplicabilidades para a fibra como a fabricação de compósitos com celulose de papel, que podem ter usos diversos dentre os quais a obtenção de telhas e, ainda, a confecção de chapas de partículas com substituição parcial da madeira, são processos viáveis”.

As fontes de carbono fóssil representam recursos não renováveis e, além disso, são a principal fonte de emissão de compostos sulfurados e de gases de efeito estufa na atmosfera. O uso de biocombustíveis permite reduzir em até 80% as emissões líquidas de gás carbônico, comparativamente à fontes fósseis (Petrobras, 2011). A cultura do coqueiro possui ampla adaptabilidade, pode ser cultivada em áreas onde outras culturas tradicionais não se estabeleceriam de forma sustentável e tem grande potencial para produção de óleo, cujos teores na copra variam de 65% a 72% em coqueiro gigante e em torno de 65% a 66% no híbrido, podendo chegar a 4.000 kg/ha. (Dias-Filho, com. pess.).

No que diz respeito ao bom funcionamento do organismo humano, o coco é uma rica fonte nutricional. Estudos indicam que o ácido láurico e o monolauril (triglicerídeos de cadeia média) presentes no fruto, favorecem a oxidação de ácidos graxos e atuam sobre a regulação da tireóide, acelerando o metabolismo orgânico e facilitando o emagrecimento. Estudos como o de Mendonça-Filho et al. (2003) comprovam a atividade terápica contra a leishmaniose através da utilização de extratos polifenólicos extraídos da fibra do coco.

Independentemente dos benefícios comprovados e dos que ainda estão em estudo, sabemos que o coco é um fruto saboroso, refrescante, leve e muito nutritivo.

 

Agradecimento: a Pedro Henrique Barreto pela arte final nas fotografias antigas.

 

Referências

Beccari, O. 1963. The origin and dispersal of Cocos nuciferaPrincipes, 7: 57-69.

de Candolle, A. de. 1886. Origin of cultivated plants. Second edition.  Kegan Paul, London,  468 p.

Cook, O.F. 1910. History of the coconut palm in America. Contr. U.S. Natl. Herb. 14: 271-342.

Cuenca, M.A.G. 1994. Importância econômica do coqueiro. In: Ferreira, J.M.S.; Warwick, D.R.N. & Siqueira, L.A. (Eds.). A cultura do coqueiro no Brasil. Embrapa/CPATC. Aracaju – SE, p. 1-65.

Gunn, B.F. 2004. The Phylogeny of the Cocoeae (Arecaceae) with emphasis on Cocos nucifera. Annals of Missouri Bot. Gard. 91: 505-522.

Harries, H. 1978. The evolution, dissemination and classification of Cocos nucifera L. Bot. Rev. 44: 265-319.

Jones, D.L. 1995. Palms: throughout the world. Washington. Smithsonian  Institution.  410p.

Lins, P.M.P.; Farias-Neto, J.T.; Müller, A.A. 2004. Avaliação de genótipos de coqueiro (Cocos nucifera L.) por meio de caracteres vegetativos. Embrapa Amazônia Oriental, Belém, PA.

Lorenzi, H.; Souza, H.M.; Medeiros-Costa, J.T..; Cerqueira, L.S.C.; Ferreira, E.J.L. 2004. Palmeiras Brasileiras e Exóticas Cultivadas. Nova Odessa: Plantarum, 416 p.

Mendonça-Filho, R.R.; Rodrigues, I.A.; Alviano, D.S.; Santos, A.L.S.; Soares, R.M.A.; Alviano, C.S.; Lopes, A.H.C.S. & Rosa, M.S.S. 2003. Leishmanicidal activity of polyphenolic-rich extract from husk fiber of Cocos nucifera Linn. (Palmae). Research in Microbiology 155(3): 136-143.

Moore, H.E.Jr., 1973. The major groups of palms and their distribution. Gentes Herb. 11(2): 27-141.

Passos, P.R.A. 2005. Destinação sustentável de cascas de coco (Cocos nucifera) verde: obtenção de telhas e chapas de partículas. Tese de Doutorado – Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ. 166p.

Petrobras, 2011. Fontes de Energia. Disponível em: <http://www.petrobras.com.br/pt/energia-e-tecnologia/fontes-de-energia/> (Acessado em 25/I/2011).

Persley, G. J. 1992. Replanting the tree of life: towards an international agenda for coconut palm research. Wallinggard: CABI/ACIAR. 156 p.

Purseglove, J. W. 1972. Tropical crops: Monocotyledons. Longman Group Limited, United Kingdom, London 1 ed., 52-54.

Uhl, N.W. & Dransfield, J. 1999. Genera Palmarum after ten years.  Pp. 245-253. In: A. Henderson & F. Borchsenius (eds),  Evolution, variation, and Classification of Palms. Mem. New York Bot. Gard.  83.

 

Citação: Góes-Neto, L.A.A. 2011. Um estranho caso do coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.). Site: www.mundodabiologia.com.br. Acessado em: xx.xx.xxxx.

 

 

4 Comments to “Um estranho caso do coco-da-Bahia (Cocos nucifera L.)”

  1. By Dulce, 26 de julho de 2012 @ 18:16

    Obrigada pelo esclarecimento.

  2. By Nardelis, 13 de outubro de 2012 @ 15:49

    “O coco é tão brasileiro como um urso polar”, o coco foi introduzido no Brasil pelos portugueses na Bahia, entre 1570 e 1590, em cartas da época eles elogiaram a terra da Bahia por produzir o fruto em menos de cinco anos, enquanto na Índia demorava até 20 anos para produzir, ou seja, eles plantaram.

    • By Luiz Góes Neto, 13 de novembro de 2012 @ 14:14

      Sem dúvida o assunto é passível de discussão,
      de modo que existem diferentes visões sobre o tema.
      Porém, existem relatos da ocorrência desta espécie no Brasil mais antigos que 1570.
      Além disso, se observarmos a distribuição da Tribo Cocoeae (Subfamília Arecoideae), veremos que são espécies primariamente Neotropicais com algumas destas ocorrendo também no continente Africano e apenas o gênero Cocos com distribuição Paleotropical.
      Creio que a análise molecular ajuda no entendimento desta questão, mas muito ainda precisa ser elucidado para que se entenda a sua complexa biogeografia. Um exemplo disso é que ainda existem muitas lacunas sobre os registros fósseis.
      Abraço.

  3. By Netho, 27 de abril de 2013 @ 13:51

    http://www.cpatc.embrapa.br/download/Documentos47.pdf

    “O coqueiro não existia, no Brasil, quando da sua descoberta pelos portugueses em 1500. E as primeiras referências aparecem no “Tratado Descriptivo do Brasil”, escrito por Gabriel Soares de Souza em 1587, que diz: ‘As palmeiras que dão os cocos se dão bem na Bahia, melhor que na Índia, porque metendo um coco debaixo da terra, a palmeira que dele nasce dá coco em cinco e seis anos, e na Índia não dão, estas plantas, frutos em vinte anos’ (Bondar, 1955).”
    Fonte: SIQUEIRA, L.A., ARAGÃO, W.M., TUPINAMBÁ, E.A. A Introdução do coqueiro no Brasil, importância histórica e agronômica, 24p, 2002. (Embrapa Tabuleiros Costeiros. Documentos, 47). Disponível em http//www.cpatc.embrapa.br CDD: 634.61

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